sábado, 2 de setembro de 2017

Pequena enquete - nova aula no canal

Naturalmente perceberam que o mês de agosto passou em brancas nuvens por aqui. Lógico, as aulas voltaram, e com elas compromissos acadêmicos inadiáveis. Mas agora, em pleno Setembro, as águas começam a baixar e posso retomar atividades superprazeirosas, que, além de tecer, envolvem ensinar a tecer. Quem acompanha o canal no YouTube sabe que há algumas aulinhas lá, coisa simples, mas que foram caindo no gosto da galera tecelã, e agora, após tanto tempo, preparo-me para um salto além - comercialização de aulas online. Para tanto, preciso do seu retorno, saber seus desejos/necessidades, e para isso, vou lançar mais uma aula, gratuita, lá no meu canal, mas agora quero saber de você - o que quer aprender? o que acha que posso te ensinar? clique no link a seguir e responda o formulário - uma pergunta só, que vai te tomar uns segundos somente - e diga-me: o que quer ver?

https://docs.google.com/forms/d/1mthf4w_B8OWrzSU8orZOY2VsuXWPlTeRYZqWtOK97Ao/edit?usp=sharing

Espero todos vocês!

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Como misturar cores ( e não ficar furiosa com o resultado) - por Tien Chiu

Tien Chiu é uma tecelã de ascendência chinesa, mas que vive nos Estados Unidos (acho que é de fato americana), e que tem um website recentemente lançado, muito interessante para quem quer aprender ou aprimorar a utilização da mistura de cores na execução de peças tecidas à mão. Pessoalmente, acho que vale para qualquer arte onde cores diferentes sejam utilizadas. Sendo assim, posto aqui o link para o site e o assunto em questão, mas vale a pena dar uma olhada no geral: muitas coisas interessantes, além de um pequeno e-book, que pode ser baixado de graça.


          https://www.warpandweave.com/bright-colors-weaving-into-mud-fix-it/#comment-289




Até a próxima!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Aventura em 10 cachecóis (9 e 10)

E, por fim, a tal aventura chegou ao fim na semana passada, com a finalização dos cachecóis 9 e 10. Foi curiosa a sensação doce e amarga que marcou o dobrar das peças e organização na caixa que os levou até seu destino. Mas, vamos aos queridos:


Nº 9 - tecido em acrílico (Batik, da Circulo no urdume e Folia, Circulo, na trama), em pente 3, foi daquelas delícias que só fazendo mesmo, para entender. Claro que as lembranças iriam surgir diante de tantas cores, mas a recordação mais vívida foi de um líquido doce que sempre tinha em casa - a famosa Groselha Vitaminada Milani. Nunca faltava, pois era só misturar à água e pronto, um suco delicioso pronto em segundos. A musiquinha do comercial não saiu da minha cabeça, e sei de cor até hoje. Óbvio que com a ajuda valiosa do YouTube, achar o comercial foi super fácil - e não deixaria de postar aqui, pois foi uma das coisas mais gostosas que marcaram minha infância:










Nº 10 - Quis terminar a série ainda com uma vibe colorida. Este aqui foi tecido com um fio de mistura acrílico/poliamida da Pingoin no urdume, e Folia da Círculo altenado com um fio fantasia flamê, quase da cor do urdume, que por ser irregular, ajudou a dar este desenho ondulado às listras. A lembrança que me veio à mente foi jujubas - isso mesmo. Não aquelas balas de goma açucaradas, mas aquelas que tinham em várias cores, incluindo o azul que aparece tão evidente nesta peça. Deliciosas, jujubas me acompanharam durante toda a minha vida. Agora, com quase 50 anos, achei por bem diminuir um pouco...rs...


E assim, fecham-se as cortinas. Devo dizer que não foi fácil me despedir das peças. Lembro-me de colocar uma ao lado da outra para uma foto final, que está em minha página no Facebook, e passando os olhos por todas, as lembranças que daí surgiram me aqueceram ternamente. Sons, cheiros e cores de uma época mágica, na qual tudo era possível - sim, porque quando somos crianças, a inocência nos blinda do cinismo do mundo, e imaginação é a palavra de ordem. Ao nos tornarmos adultos, claro, tudo muda, mas quando existem oportunidades como essa, para nos lembrarmos de quem éramos, dos nossos sonhos, devemos nos deixar levar e por alguns minutos, permitir que aquela criança dentro de nós saia para brincar. Sou grata por este projeto, e que venham outros, muitos outros...

Até a próxima!

domingo, 9 de julho de 2017

Aventura em 10 cachecóis (7 e 8)

E, por fim, estamos nos aproximando do final desta aventura, tão colorida e tão cheia de significados, para mim. Ontem, finalizei o último cachecol da série, que juntamente com o nº 9, seguem esticadinhos secando ao sol. Assim, esse é nosso penúltimo post sobre estes dias de "trabalho"...





O número 7 foi tecido com um urdume que achei no meio de tantos fios, viscose e microfibra, infelizmente descontinuado. O azul clarinho deu-me a idéia de acrescentar como trama um fio da Círculo chamado Batik, ótimo, acrílico. A mistura dos dois materiais produziu uma peça muito macia, que foi tecida em pente 4. As lembranças evocadas aqui foram de algodão-doce; quando criança, eu simplesmente adorava e achava o máximo a quantidade de cores possíveis. Era uma festa quando podíamos ir a locais onde era vendido - diversão na certa! mais legal ainda era ver a máquina de algodão-doce funcionar - mágica!


Número 8. Tecido em acrílico Cristal e Fio Folia, da Círculo, um acrílico mais grosso e bem colorido, em pente 3. Achei um fio azul bic, acrílico/30 % lã, super macio (Lã Seda, da Pingouin). Bingo, combinação perfeita. Ao tecer, e não sei bem o porquê, sabores daquela bala Mentos de fruta vieram à minha mente. A embalagem atual é meio diferente, mas me lembro perfeitamente de comer (muitos) pacotes desta bala, simplesmente deliciosa. Aliás, minha preferida até hoje...

E assim, amigos, despeço-me por hoje, enquanto 9 e 10 aguardam-me para sua finalização. Na semana que vem, papos de groselha vitaminada e jujuba serão a temática...rs...

Até lá!


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Aventura em 10 cachecóis (5 e 6)

Os cachecóis 5 e 6 de nossa série vieram trazendo lembranças das brincadeiras de infância, misturadas às refeições na casa da minha avó. Como sempre, é engraçado e quase catártico, como determinadas cores e texturas produzem sensações e recordações tão potentes, que é como um filme passando em frente aos olhos..


O cachecol nº 5 foi tecido com urdume em fio Cristal, e trama com fio de acrílico com 30 % de lã, o que aumenta a maciez significativamente, e por conta desse fio, um pouco mais grosso, foi tecido em pente 3. Lembrei-me daquelas brincadeiras de criança que (acho) já não se usam mais: amarelinha, pular cerca, corda...meu Deus, o quanto brinquei disso. Ao tecer esse cachecol, lembrei-me de minha escola do primário, onde em um determinado momento de um ano escolar, havia uns materiais de construção guardados em um canto, ao qual tivemos acesso na hora do recreio. No meio da bagunça, haviam arames encapados - aqueles que servem para fazer varal, e que tem várias cores - e achamos um bem comprido, azul. Rapidamente, já demos um bom uso àquele arame, que nos serviu de corda para pular - e assim, ficamos por bem uns 20 minutos, nos divertindo. Essa lembrança me veio de maneira tão forte que resolvi acrescentá-la no urdume - e os fios azuis então fazem essa homenagem mais do que singela à uma época tão inocente, onde nós, alunos de escola estadual (excelente, por sinal), nos divertíamos com tão pouco, e nem mesmo sonhávamos com os tablets e smartphones que viriam tantos anos depois...





O cachecol de nº 6 foi tecido em cores verdes bem claras, com alguns toques de vermelho. Lembrou-me dos almoços na casa da minha avó, onde lembro-me, com tanta clareza, a quantidade de saladas que havia. Na falta de travessas, minha avó punha a salada, de tudo quanto possa imaginar, mas principalmente alface e tomate, em uma bacia até grandinha - isso mesmo, era MUITA  gente junta...rs..... Assim, o verdinho claro da alfate e o vermelhinho do tomate estão representados nessa peça...

E é com prazer que informo aos distintos navegantes que ao escrever, este post, minha saga está quase terminada - estou executando o cachecol de nº 9, enquanto que 7 e 8 estão terminando de secar. Em breve, novas lembranças!

Até lá!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Aventura em 10 cachecóis (3 e 4)

Avançando um pouquinho mais depressa, venho apresentar os cachecóis 3 e 4 de minha aventura, enquanto que 5 e 6 estão em processo de lavagem. Devo dizer que este pequeno lote de peças está sendo primordial a mim, por vários motivos: forço-me a pensar em várias e várias combinações de cores/fios, tendo em mente que o público-alvo é o infantil, e assim, há de se fugir das cores mais tradicionais do inverno; meu estoque é realmente grande (mil carinhas de sorrisos), mas ainda não há muitas opções de fios macios. Tenho uma infinidade de algodão mercerizado e não mercerizado, e alguns bons acrílicos, mas outras misturas, tais como viscose/algodão, algodão/poliester, viscose/microfibra, enfim, fios especiais, são poucas as minhas opções, e para encontrar no mercado, também não há muitas nesta época do ano. Enfim, haja criatividade, e definitivamente, é uma fuga de minha zona de conforto. Mas o que mais tem me estimulado neste projeto é justamente o que cada combinação de cores/fios tem trazido à tona como lembranças. Em geral, sou bastante cirúrgica no quesito cores: tendo sempre a fazer as combinações mais harmoniosas, tradicionais, etc. Mas, ao longo da confecção destes pequenos cachecóis, obriguei-me a olhar fora da caixa e combinar elementos que tem dado bastante certo até agora - e quando isso ocorre, uma avalanche de imagens, cheiros e lembranças da infância tem me invadido a mente.




O nº 3 tem cores fortes, que me lembraram as laranjas e limões sempre constantes na casa de meus avós, assim como em minha casa, também. Aqui, o fio de acrílico em cor única, laranja (Cristal), foi misturada à trama com fio fantasia (flamê, Linea Italia), em pente 4. Esse fio, descontinuado infelizmente, tem a base verdinha, entremeado com outras cores, em uma mistura de poliester e poliamida.



O número 4 tem a base em verde água, com fio de viscose/microfibra, muito macio. A trama é mistura de 2 fios fantasia também Linea Italia, bastante alegres, que me lembraram do conjunto de plantas da minha avó. Sempre gostou de vasos, flores, folhagens - um jardim colorido.


E assim, sigo para os 4 últimos (conforme já disse, 5 e 6 já estão prontos). O que mais virá à mente? não sei. Mas estou ansiosa em descobrir.

Até a próxima!

domingo, 25 de junho de 2017

Aventura em 10 cachecóis (2)

O segundo cachecol tem bouclé e algodão. Achei, no meio do estoque, um fio torcido, que nem sei de qual empresa é, mas que servia totalmente para urdume, por ser firme e ter um ar bastante alegre. Este fio, com certeza descontinuado, atende perfeitamente aos requisitos para urdume de cachecol: firme, mas não duro. Foi uma grata surpresa, pois obviamente nem lembrava dele...




Para a trama, decidi por um bouclé da saudosa Linea Italia, chamado Aquarela. Tinha esse único novelo, e achei que seria totalmente adequado. As cores, não sei porquê, me lembram os doces no bar de meu avô, tantos anos atrás...lembrança mais que alegre de um tempo muito bom...




O cachecol nº 3 já está tecido também, e foi executado enquanto 1 e 2 estão em processo de lavagem e finalização. Logo, logo, pensando no nº 4, venho mostrar o que mais andei encontrando no estoque - aliás, viva o meu estoque!!

Até a próxima!

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Aventura em 10 cachecóis

Salve, people! cá estou, iniciando nova aventura, que já estava combinada para iniciar antes, mas que por motivos de trabalho, acabou começando agora. Como sempre, tem várias coisas acontecendo ao mesmo tempo: são provas e aulas, fechamento, e no meio disso, aquela vontade que não me deixava nunca de dar um "up" no ateliê e ter mesas -é isso mesmo. Fiquei alucinada com a idéia de arrumar tudo, vender o que não está sendo usado (daí o post Despacha!), doar, enfim, liberar a energia acumulada. E olhem, não foi fácil. Desapegar nem sempre é tão simples quanto parece, mas a necessidade de saber qual era o meu "acervo" real falou mais alto, e aí, a coisa só progrediu, e ainda não terminou. Ainda não concretizei nenhuma venda, mas há promessas - e sei que a pressa não irá me ajudar. Na arrumação, separei linhas, e organizei outras - e juro, foi a melhor coisa que fiz em meses e meses comprando fios e largando em qualquer lugar. Com a santa e preciosa ajuda de minha mãe, Corina, o ateliê está ficando uma verdadeira beleza, e tudo agora o que preciso são minhas outras duas mesas, e aí estará completo. Mas neste momento, já está um sonho de arrumado, e aqui então começa a aventura citada acima.

Tudo começou com um pedido - uma encomenda para cachecóis infantis. A Pri, fofíssima, fez a singela solicitação de 100 cachecóis infantis. Naquele momento, eu estava no auge do stress com várias coisas, e quase surtei. Obviamente, não seria possível, e conversa vai, conversa vem, combinamos por fracionar, reduzindo este número para 10, pois seria tudo o que eu poderia fazer até o mês que vem. Aproximadamente duas semanas depois, iniciei o projeto, e achei que seria interessante ver quantas combinações diferentes eu conseguiria fazer utilizando sempre a mesma base de largura, comprimento, e  o mais importante - somente ponto tela.

Esta arrumação deu-me chance de achar novelos que já nem me lembrava que existiam, o que me ajudará imensamente ao longo destes dias tecendo e tecendo. Assim, juntem-se a mim nesta empreitada, e venham comigo ver o que consigo fazer. O primeiro está pronto, e é uma mistura de acrílico, poliéster e viscose:










No urdume, fio de acrílico Cristal na cor mel, e para a trama, um fio fantasia em poliéster e viscose , bastante irregular, mas que forneceu uma maciez incrível. Após a lavagem, acho que vai ficar sensacional. O pente usado é 4, e será usado durante a execução da maioria dos cachecóis.

E vamos ao próximo!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Despacha!

Salve, comunidade artesã! hoje, aparecendo rapidinho para falar de um site interessante para venda, troca ou doação de material de artesanato, novos e usados: o Despacha. Basicamente, para anunciar seu produto você deve postar os detalhes, colocar fotos boas e nítidas, indicar se há frete a cobrar ou não (e nesse caso, você deve colocar as medidas de um possível pacote, bem como peso), e o recebimento é feito pelo sistema Moip, o mesmo do Elo7. Assim, se você tem uma loja lá, já sabe como funciona, e o seu cadastro naturalmente vai servir para a sua loja no Despacha também.

O Despacha não cobra nada por abrir a loja e postar produtos, mas cobra uma comissão de 12% em cima do que for vendido. Está iniciando, e assim, algumas coisas ainda estão por acertar devidamente (em mimha humilde opinião), como por exemplo, o fato de poder editar somente uma vez seu anúncio (e se errar de novo, como ocorreu comigo, tem que pedir para a Bianca (administradora), te ajudar), e o fato de não conseguir simplesmente apagar o anúncio, acredito eu, antes de um mês, tempo mínimo de permanência solicitado. No mais, tem um visual clean, de fácil aprendizado, e eu particularmente gostei muito da proposta porque às vezes temos material muito bom, mas que por motivos diversos não será mais usado, e que acabamos por anunciar em outros sites de venda onde existem milhares de produtos diferentes sendo ofertados também. Acho que, se concentrados em um site específico, a visualização é sempre maior. Assim, se você ainda não conhece, aproveite o link da minha lojinha lá para dar uma olhada nas coisas que estou disponibilizando, e quem sabe, você não abre a sua também?

http://despacha.com.br/lojinha/429


Veja o vídeo da Bianca sobre essa proposta:


https://vimeo.com/221190870


E se achar que vale a pena, está aqui um link de cadastro:

http://despacha.com.br/registerLink/429

A seguir, algumas fotos de produtos que estou "despachando". Gente, tá tudo bem no atelíê. Só estou fazendo uma coisa que há tempos estou planejando, e agora, quase de férias do trabalho, é que estou com tempo: revigorando, renovando, abrindo espaço, esperando o novo. Ao longo de todos esses anos, fui agregando materiais diversos, e que agora, precisam ir a outros lares. Ainda não terminei a "limpa", mas já separei coisa boa:








E aguardem, porque tem mais!

Até a próxima!

domingo, 21 de maio de 2017

Com a palavra, o urdume

Hoje quem posta é meu atual urdume, que em um prazo de 2 ou 3 dias, já recebeu, e perdeu, 3 das 4 das idéias que tive para a trama. Isto já me ocorreu várias vezes ao longo destes anos todos, mas hoje, quando finalmente achei a trama vencedora, uma história sobre a "saga" começou a surgir na mente, e diante de uma tarde chuvosa e um fim de gripe, achei que seria engraçado imaginar o que diria o urdume se pudesse falar...

"Olá, eu sou o urdume.
Bem, descrevendo-me de maneira mais acurada, sou um fio de acrílico, de aproximadamente 200 TEX (o que seria considerado "fino" na espessura), de cor bege, quase que um café-com-leite, da marca Pingouin Lansul. Tenho certo orgulho de minha origem, uma vez que faço parte de um grupo de fios muito tradicionais, e que são normalmente considerados muito bons e resistentes por quem os usa, sobretudo no tricô e crochê.

Eu e meus colegas "de lote" ficamos animados quando fomos finalmente entregues em nosso endereço inicial, e aguardamos ansiosos nosso destino. Ficamos a imaginar de qual peça de vestuário iríamos fazer parte: uma blusa, um cachecol, uma manta? não importa, pois o essencial é servir ao propósito, de maneira prática e embelezadora.

Cada um de nós seguiu para um lugar diferente, e eu acabei por ser enviado à esta casa, juntamente com outros colegas de cores diferentes, e lotes diferentes. Não os conhecia muito bem, mas acabamos por interagir, enquanto a caixa onde estávamos guardados mantinha-se fechada, o que se estendeu por alguns dias. Durante este período, entre sussurros, tentávamos entender onde estávamos, e o que faríamos ali. Sem haver na caixa qualquer chance de "espiar" o exterior, limitávamo-nos a especular, e vez ou outra escutávamos passos, ora humanos, ora uns diferentes, que, depois aprendi, eram do animal da casa, um cão, o que respondeu nossas dúvidas a respeito das "fungadas" ocasionais na caixa onde estávamos. Enfim, chegou o dia de nossa "liberdade", e pudemos então dar uma boa olhada ao redor.

Era um ateliê, com vários equipamentos diferentes, que não conhecia. Logo, identificamos outros colegas, e os cumprimentamos, assim que nossa dona, a senhora, nos posicionou lado a lado com eles. Olhei ao redor, e perguntei a meu vizinho: " o que são estas coisas? e onde estão as agulhas de tricô?", e ele me respondeu, revirando os olhos: "não há agulhas deste tipo aqui. Este é um ateliê de tecelagem. E estas coisas são teares, bro."

Teares. Sim, já tinha ouvido falar, mas não sabia onde, talvez lá na fábrica onde nasci. Nunca achei que um dia teria a oportunidade de conhecer um de perto. Bem, este dia chegou, e em breve eu iria participar deste processo.

Vi que a senhora preparou um retângulo cheio de pinos próximo à janela. Então, com cuidado, retirou o plástico que me envolvia e me colocou no chão. Puxou o início de meu fio e começou a passar por aqueles pinos, indo e vindo. Vi parte de mim sendo distribuída com cuidado, mas não entendia muito bem. De onde estava, ouvi os outros comentando: "ele será urdume". E minha confusão aumentou ainda mais.

Lá de baixo, gritei: "mas o que é isso?". De cima, alguns riam,  outros observavam com interesse o desenrolar de meu cone. Aquele meu vizinho respirou profundamente antes de responder, como que buscando paciência: "cara, o urdume é a base da tecelagem. Você ficará distribuído em posição vertical no tear, e vai receber o fio da trama, entrelaçado a você, em posição horizontal. Tipo assim, se fosse pintura, você seria a tela, e o fio da trama seria a tinta, tá ligado? o conjunto final é a trama ou tecido."

Hum. Base da tecelagem, muito interessante. Então, eu seria a base, o que deve ser importante nesse negócio. Mas, eu ainda tinha uma pergunta final: " você falou em fio da trama. Eu posso ser isso também?"

"Pode, bro. Mas não acho que vai ser o caso. Pelo o que tenho observado nos últimos dias, a senhora não costuma usar o mesmo fio para urdume e trama. Acho que é o estilo dela, sei lá."

Sem mais perguntas, aguardei o término da ação que a senhora estava conduzindo, e aprendi que ela estava me "urdindo", ou seja, organizando-me em pedaços uniformes e em uma determinada ordem. Simplesmente relaxei e aguardei a próxima etapa.

Quando terminou, devagar me retirou daqueles pinos, e cortou as pontas. Agora, parte de mim era um conjunto de fios do mesmo tamanho. Minha outra parte manteve-se no cone, que agora ocupava lugar com os outros. Meu  novo vizinho perguntou-me: "e então, está animado?". E eu, olhando minha outra parte pendurada, aguardando, respondi: "ainda não sei. Mas acho que vou ficar."

Este vizinho então comentou: "olhe, já servi como urdume, e lhe digo: é muito prazeroso...quando o fio da trama combina com você. O conjunto tem que "casar", entende? do contrário, o resultado final pode ser desapontador. Mas não se preocupe, a senhora costuma perceber isso logo no início do trabalho."

Vi que a senhora retirou o retângulo, que também aprendi ser uma urdideira, e em seu lugar colocou um equipamento pequeno, que já tinha aprendido ser um tear. Vi que colocou uma espécie de tábua fina com furos e fendas, e que aprendi ser o pente. A senhora, então, pegou a parte de mim como urdume, e foi colocando em cada furo e fenda, até que eu estivesse todo arrumado nos lugares devidos. Depois, vi que amarrou as pontas na parte de trás do tear, e foi enrolando. De vez em quando, ela parava para puxar as pontas soltas, como que apertando o rolo que se formava, e então continuava. Quando ficou satisfeita, amarrou as pontas na frente em um rolo, que a vi ajustar até que os fios estivessem bem esticados.

Eu, agora urdume, estava "tenso", em todos os sentidos: sentia-me esticado  fisicamente, e estava ansioso por aguardar o outro fio, aquele "da trama". Se tudo desse certo, seríamos inseparáveis até o fim. Mas se não desse...alguém teria que sair de cena, e esperava que não fosse eu. Novo no trabalho, não queria esta mancha na minha carreira - ser o fio que "não serviu". É bobagem, eu sei, mas assim mesmo, queria que desse certo. Já tinha a informação de que, em geral, a senhora costuma trocar o fio da trama, até que este se ajuste ao urdume, mas também corria à boca pequena sobre um episódio onde a senhora, tomada de certa fúria ou frustração, cortou e jogou no lixo mais da metade do urdume, porque este não aguentava a tensão e arrebentava-se facilmente. O resto que sobrou foi retirado do tear e guardado, em um local até o momento desconhecido de todos. Dizem que ela se arrependeu amargamente, pois nem todos os fios são feitos para urdume, mas o que fazer? todos cometem erros. Aparentemente, não voltou a acontecer.

"E que assim se mantenha", pensei comigo. Não queria ser picotado, jogado ao lixo ou guardado em um canto, esquecido. Entre nós, fios,  é o equivalente à "vergonha alheia" dos humanos - ainda que não se tenha culpa.

A senhora, então, começou a tramar. O fio da trama era largo, de cores chamativas, bem bonito mesmo. Eu o cumprimentei quando chegou e começou a se entremear entre os cabos (também aprendi esse termo, que representam as partes de mim urdidas e organizadas no pente). De cara, vi que era meio arrogante, do tipo "mas o que estou fazendo aqui?", e me cumprimentou rapidamente, já emendando: "apertado aqui, hein? a "mocinha" ali escolheu mal o pente...ou o urdume", olhando -me de alto a baixo. Antes que eu pudesse ter a chance de responder, a senhora desceu o pente, nos compactando suavemente. Em seus olhos, pude ler a dúvida, mas ela ainda insistiu em mais algumas passadas. A cada uma delas, o fio da trama, aquele insuportável, dizia alguma coisa, do tipo: "querida, preciso de mais espaço aqui", ou "essa cor de urdume está me matando". Nem preciso dizer que estava no meu limite.

Por sorte, a senhora parou tudo. Fiquei olhando, totalmente nervoso, esperando seu próximo passo. O fio da trama somente me olhou e deu um meio sorriso cínico: "é, meu chapa, acho que é o fim da linha...para você. Bem disse que não combinamos."

A senhora, então, começou a desmanchar o que tinha feito, que era pouco. Rapidamente, era só eu naquele tear. Vi quando o arrogante foi enrolado de volta em seu novelo, e também o ouvi falar: "finalmente! mereço um urdume à minha altura. Retire aquilo do tear e me dê algo que valha a pena!" Pouco depois, o novelo com o falastrão foi colocado de volta ao pacote de onde saiu. "Mas, espere aí; por que está me guardando? troque este urdume e você verá como será perfeito! espere aí! não ainda!". Tarde demais, já tinha voltado para a prateleira.

Respirei aliviado, sem deixar de rir internamente daquele infeliz. Eu continuava no jogo.

O candidato número 2 era novo, e bem simpático. Colorido e grosso, parecia uma boa escolha...só que não. Ao chegar, já me cumprimentou alegremente: "e aí, colega? como estão as coisas?" e então respondi: " Indo. Você é o segundo a tentar esse urdume".

Batida do pente, e segunda passada. Vi a feição da senhora, e já entendi. "Mais um fora...". Mas não era eu.

O candidato deu de ombros, e me desejou boa sorte. "Espero que você encontre seu par logo", disse, e então voltou ao seu novelo. Cara bacana, este. Parece que chegou estes dias como uma novidade de sua fábrica, que não é a minha. Tomara que seja usado em breve.

Candidato nº 3. Cor lisa, bem próxima à minha, vinha com um colega igual, em um tom mais escuro. Contido, foi bastante educado. Cumprimentou-me formalmente, e vi que havia ali alguma possibilidade, assim pelo menos eu achava. A senhora, então, começou a tramar com o outro fio, e vi os dois começarem a conversar. " Acha que isso vai dar certo? não vejo muito destaque entre nós e este urdume." e virou-se para mim, rapidamente: "sem querer ofender. Simplesmente sua cor é muito próxima da nossa." Batida do pente, e eu então fiquei estudando as feições da senhora, que continuava o trabalho. Não conseguia identificar seu sentimento. De repente ela parou, e se afastou do tear.

Ficamos lá, eu e estes fios, e então puxei assunto: " o que acham que aconteceu?".

"Provavelmente nada", disse um deles. "Ela deve ter dado uma pausa".

E assim, passamos mais de um dia. Vez ou outra, ela parava para dar uma olhada, e eu só ficava observando. O trabalho não avançava, o que começou a me preocupar. Estávamos na terceira tentativa, então a probabilidade de eu ser o próximo a sair começava a aumentar. Fiquei meio paranóico, já imaginando a cara dos colegas...olhava para a outra parte de mim no cone, e pensava: "não tenho como voltar para lá". Imaginei os piores cenários.

E mais um dia se passou, sem que a senhora tivesse aparecido ali uma vez sequer. Em um determinado momento, ouvi ao longe  alguém dizer que ela estava adoentada, e fiquei sem saber o que esperar. Alguns cones tentavam me animar, dizendo que em breve ela voltaria e terminaria o trabalho, e outros, céticos, diziam que era melhor eu me preparar. Os fios da trama, indiferentes, limitavam-se a conversar entre si.

No dia seguinte, vi a senhora se aproximando do tear. Pensei: "é agora", e fiquei aguardando seus movimentos. Vi que pegou uma tesourinha e cortou os fios da trama, onde tinha parado. Prendi a respiração e olhei para eles, que, ainda indiferentes, esperavam pelo desenlace. Vi, então, que ela começou a cortar entre os meus cabos, soltando os fios das tramas, que agora se despediam. " Estes pedaços vão para o lixo", diziam. "Ainda bem que há mais de nós nestes novelos. É pena, mas acho que ficaremos melhor em outro urdume. Boa sorte a você". A cada corte, sentia a tesoura perto, que trabalhava rápido. E mais uma vez, lá estava eu, sozinho. Qual era o meu problema?

Vi que a senhora me olhava, e eu sentia que talvez ela estivesse buscando outras finalidades para mim. "Vergonha alheia", pensei eu. "Ninguém merece".

De repente, eu a vi direcionar o olhar para o chão. Ela se abaixou, e quando voltou, trouxe com ela um novo novelo, de cores em degradê, muito bonito. Percebi que analisava o fio, comparava comigo, e resolveu tentar novamente. Após algumas passadas,  seu olhar se iluminou. Ela havia completado o par desejado. Percebi uma certa ponta de inveja, misturada com incredulidade, por parte daqueles que não acreditavam que eu conseguiria ser urdume de algum fio neste ateliê. Ao chegar, o novo fio da trama estava tímido, e humildemente me cumprimentou: "olá". Ele continuou:"sei que houve alguma dificuldade com a sua integração a outros fios, e eu gostaria de dizer que lamento muito por isso", e sorrindo, completou: "mas de algum modo, sinto que estaremos ligados por muito tempo".

Também sorri, diante da confiança deste companheiro. Minutos depois, vi que ele estava totalmente certo.

E assim, cumprindo o que foi a mim destinado, finalmente me senti em casa."









Um abraço, e até a próxima aventura!








domingo, 14 de maio de 2017

Fios suplementares (ou complementares) em tear de pente liço

Salve, people! voltando após algum tempo para conversar sobre fios suplementares no tear de pente liço. Fácil e de efeito especial!

A idéia não é minha, mas sim de Jane Patrick e seu livro maravilhoso, "The Weaver´s Idea Book". Aliás, já deixo aqui o link deste livro, que pode ser adquirido pela Amazon Books do Brasil. Quando comprei, anos atrás, não era assim tão prático...

https://www.amazon.com.br/Weavers-Idea-Book-Creative-Heddle/dp/1596681756/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1494591415&sr=8-1&keywords=the+weaver%C2%B4s+idea+book

Um pouco de teoria:
 Fios complementares são aqueles que não farão parte da estrutura do tecido propriamente dita, mas sim adicionarão elementos ornamentais diferenciados. Assim, é possível complementar o tecido com fios no urdume, na trama ou ambos, como foi o caso aqui descrito, e de acordo com o objetivo, obter resultados bastante impressionantes.

Tais padronagens são produzidas normalmente em teares de quadros, onde um ou dois quadros, em geral, vão levantar os fios complementares, enquanto que os outros irão produzir ponto tela no tecido base. Em um tear de 4 quadros, por exemplo, dois quadros irão produzir ponto tela, enquanto que os outros dois irão receber os fios complementares - isso para fios complementares somente no urdume. Para combinar complementos no urdume e trama, é necessário um tear com mais quadros.


Fonte: BEST, 2005

Este gráfico representa uma padronagem bastante simples com fios complementares no urdume, para um tear de 4 quadros. Veja que os quadros 1 e 2 produzem o tecido base, enquanto que os quadros 3 e 4 recebem os fios complementares.

O desenho do livro de Jane tem uma representação gráfica, voltada para teares de quadros - neste caso, 5 quadros - e que é mostrada abaixo. Vamos falar um pouco sobre ela.


Olhando a liçagem (coluna horizontal, em cima), e lendo da direita para a esquerda, vemos que os quadros 1 e 2, assim como os quadros 3 e 4, fazem ponto tela. O quadro 5 é usado exclusivamente para os fios suplementares.

A pedalada é lida de cima para baixo (coluna vertical à direita), e mostra dois momentos diferentes, que vão produzir as flutuações verticais e horizontais. É importante frisar que durante esses dois blocos,  o tecido base em ponto tela deve ser produzido ininterruptamente, ou seja, se eu quiser a qualquer momento retirar essas flutuações, não haverão falhas na estrutura do tecido.


Deste modo, para a produção das flutuações verticais, enquanto o tecido base é produzido, deve-se iniciar acionando os pedais 1, 4 e 5, alternando com os pedais 2, 3 e 5. A alternância 1,4/2,3 produzirá o ponto tela, e o quadro 5 deve ser levantado todas as vezes para que os fios suplementares possam flutuar sobre o tecido base.

O segundo bloco, com flutuações horizontais, é produzido  acionando-se 4,5, o que produz a primeira flutuação horizontal, que passa também pela mesma cala anterior (4), e por cima dos fios do quadro 3. Acionando-se 2,3, ponto tela é produzido embaixo da flutuação, enquanto que também produz cruzamentos alternados com a passada anterior,  na região de encontro entre flutuações horizontais e verticais. Levantando o quadro 3, uma nova flutuação horizontal é produzida, enquanto que o fio passa na mesma cala do fio base anterior. Assim, na região central teremos um padrão 2/1 ( dois fios, um base e outro complementar) que passam por baixo de dois fios (base e complementar) e por cima de 1 (base). A próxima posição, 1,4,5 continua a produzir ponto tela no tecido base, e se alterna na região central com os fios anteriores. Continua-se, então, a produzir flutuações horizontais da mesma maneira já citada. O resultado deste bloco mostra tecido base formado abaixo das flutuações, enquanto que um "falso ponto tela" se desenha na região central. Parece intrincado, e parece também que os fios complementares estão totalmente inseridos na estrutura do tecido base, mas quando os retiramos, vemos que o ponto tela continua intacto:


Refiz o gráfico, agora sem os fios suplementares, mas mantive as cores e as posições onde passam. O software é incapaz de reproduzir com exatidão as flutuações, então interpreta como sendo parte integrante do desenho; assim, quando retiramos os fios suplementares, ficam esses "buracos" no tecido, que na realidade não existem. O mais importante é notar que, mesmo sem os fios, o ponto tela se desenha normalmente. Bacana, não é?



VAMOS AO QUE INTERESSA?

E agora, o mais legal ainda: não precisamos de um tear de 5 quadros para reproduzir este desenho de maneira bastante aproximada, mas somente um tear de pente liço e algumas navetes ou réguas!


No tear de pente liço, é preciso lançar mão de réguas ou navetes que possam erguer os fios desejados, e fazer as vezes dos quadros faltantes. Devemos nos lembrar que só há duas posições:  em cima (furos ), ou  embaixo (fendas), que corresponderiam a dois quadros. O uso das navetes auxiliares ajuda a controlar quais dos fios em cada posição serão erguidos durante o trabalho.





No livro de Jane, a ideia da padronagem apresentada foi usar fios no tecido base, e complementares, de tipos diferentes, e com encolhimento diferente.

Vejamos as figuras apresentadas por Jane:


Fonte: PATRICK, 2010.

À esquerda, o tecido quando saiu o tear, e à direita, o tecido lavado.

Para tecer a amostra, foram utilizados lã para o tecido base (em cinza), enquanto que os fios complementares em vermelho, azul e amarelo, são fios de linho. No caso aqui, a lã encolhe, enquanto que o linho, não. O resultado após a lavagem mostra os fios de linho "ondulados", porque a trama, embaixo, encolheu. Essa é uma das opções para o uso da complementação.




Agora, vamos ao meu experimento, um tecido para uma gola. Usei acrílico, tanto para o tecido base, quanto para a complementação, mas de espessuras diferentes:para a base, fio Desejo da Pingouin, um acrílico um pouco mais fino que os tradicionais fios de inverno, muito macio, na cor cinza, para acompanhar Jane (rs..), e usei fios finos de acrílico, Cristal, também da Pingouin, que são meus xodós neste inverno: bons, preço justo e muito resistentes para o urdume - recomendo a todos.

Muito bem. Uma vez urdido o tear com o fio base de sua escolha, tanto furos quanto fendas, é hora de urdir os fios suplementares. Assim, procurei usar a receita da Jane, adaptada à largura de minha peça, e produzi os blocos conforme se segue (instruções do livro). Importante dizer que são necessárias adaptações da sequência do gráfico para o tear de pente liço, para que a padronagem aproxime-se ao máximo, e assim, algumas passagens serão ligeiramente diferentes.

Material basiquinho:
1 novelo 100 g Desejo Pingouin na cor cinza - 40 cabos de aprox. 2,00m
4 cabos de fio Cristal laranja - 2,00 m
4 cabos de fio Cristal azul royal - 2.00m
Tear de pente liço 40 cm
1 pente 2:1
5 navetes - 2 auxiliares e 3 para a trama.


1.Iniciando com um furo, urdi 40 fios cinza  em um pente 2:1. Da direita para a esquerda, contei 9 fios, e no 10º (que deve estar em uma fenda), coloquei um fio suplementar azul, fazendo a mesma coisa por mais 3 fendas. Contei mais 9, e fiz a mesma coisa, só que com o fio laranja. Assim, há fendas com dois fios (suplementar e base). Sobram 8 fios finais. Amarrei os fios normalmente junto com todos os outros nos rolos traseiro e dianteiro, acertando a tensão. Preparei 3 navetes para a trama, uma com fio cinza, para o tecido base; uma com fio complementar laranja e outra com fio azul.

Aqui, uma pausa para uma explicação rápida sobre essa liçagem, que é feita da direita para a esquerda:




2. Abaixei o pente, expondo os fios das fendas. Agora, precisava colocar atrás do pente, as réguas ou navetes que movimentariam os fios. Posicionei uma navete, que chamei de A, por baixo baixo das regiões que continham fios base e complementares juntos, na mesma fenda, e por cima dos outros fios das fendas que só continham fios base. Essa navete vai fazer o papel dos quadros 4 e 5, e produzir  as flutuações horizontais.Posicionei outra navete (B), agora passando por baixo somente dos fios complementares, e por cima de todos os outros, e foi útil para produzir as flutuações verticais. As duas navetes podem ser mantidas atrás do pente, porque uma desliza por cima da outra.

3. De acordo com o livro de Jane, iniciei a peça fazendo 5 duítes de ponto tela, que devem terminar com o pente embaixo. Se for preciso, faça mais uma passada, ou uma a menos. Para tanto, simplesmente mantive as duas navetes auxiliares bem atrás do pente, para que não interferissem com o ponto tela, e executei da maneira usual. Neste momento pode-se observar que os fios complementares serão tecidos juntamente com os fios das fendas.

4. Feito isso, iniciei a padronagem com o bloco 1(flutuações verticais), que foi tecido inteiramente com o fio cinza.

a) Pente em cima  + navete B, que deve ser trazida para a frente até encostar no pente. Essa ação ergue os fios dos furos e mais os fios complementares
b) Pente embaixo e navete B para trás . Repetir a) alternado com b) por mais 7 vezes.
c) Termine com pente em cima e navete para trás

5. Para o Bloco 2 (flutuações horizontais), as outras navetes com fios complementares foram usadas, uma cor por vez. Iniciei com o fio azul.
a) Pente embaixo. Traga a navete A para a frente, e vire-a de lado, de modo a erguer os fios em cima dela, e abaixar os fios embaixo dela. Essa ação vai erguer fios das fendas tanto do tecido base quanto complementares. Passe o fio azul e bata.
b)Mantenha o pente embaixo, e a navete para trás, erguendo todos os fios das fendas. Passe o fio cinza e bata. Deve então haver dois fios (base e complementar) passando na mesma cala, passando por baixo de 2 fios (base e complementar) do urdume, na região central.
c) Pente em cima, navete para trás - erguendo os fios dos furos - fio cinza.
d) Repita as ações a); b); c); e d); mais 3 vezes.
e) Termine com pente embaixo e navete para trás - fio cinza.

A partir daí, fui repetindo a sequência bloco 1 / bloco 2, sempre alternando entre azul e laranja.

Para complementar, deixo aqui os links dos videos que fiz, bem simples, mas que, acho, vão auxiliar a todos que quiserem se aventurar...
https://youtu.be/L3ajnWr_dkw

https://youtu.be/HDToRla3SDo

https://youtu.be/MtwZ8cCogTQ

Fica aqui a dica de hoje!

Um abraço e até a próxima!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

"Mais amor, por favor"

Faz tempo que não apareço aqui. Entre mil coisas a fazer, e pouca tecelagem, infelizmente, não sobra tempo para escrever. Mas hoje ocorreu um fato que achei  interessante compartilhar, não por ter me deixado abaladíssima ou coisa do tipo, mas por ter achado meio exagerado, em meu ponto de vista.

Tenho um canal no YouTube, como é de conhecimento de todos que me seguem. Como muitos, e como forma de agradecimento até, gosto de produzir algumas coisas e postar em vídeos, para auxiliar aos que gostariam de aprender alguma coisa de tecelagem mas não tem recursos para investir em livros e vídeos. Muito já aprendi no YouTube, DE GRAÇA, e tento retribuir da maneira que posso.

Dito isso, é direito de todos que assistem minhas aulas gostarem ou não do material. Sou professora há muito tempo, e sei o que é isso - há alunos que me adoram e outros que simplesmente odeiam, a mim ou à aula, ou ambos. E tudo bem, é isso mesmo. Não preciso agradar a todos, pois sei que tento fazer o melhor, e tento, como todo ser humano, tirar das críticas o conhecimento para melhorar. E quando se está recebendo para executar o trabalho, saber escutar as críticas é mister - o aprimoramento é fundamental para uma boa relação professor-aluno, cliente-artesão, etc, e muitas vezes, são sugestões mais que bem-vindas.

No entanto, há momentos nos quais é preciso saber criticar. Sempre procuro tomar muito cuidado ao fazer criticas a trabalhos alheios, porque existem jeitos e jeitos - critique sim, se isso for extremamente pertinente ao seu aprendizado\produto, etc, mas com critério, e sobretudo, respeito.

Hoje, recebi uma critica a um vídeo meu no YouTube, sobre uma aula de renda mexicana, acho.

" Vc fala muito e enrola demais. Seja mais objetiva e direta, minha flor".

Sei que não foi por maldade. Foi simplesmente uma opinião, externada de uma maneira um tanto bruta, mas somente uma opinião. E eu respeito isso, juro. Mas...

Eu falo muito mesmo. É mania de quem leciona e tenta ao máximo fazer os alunos entenderem. E, sim, sou bastante detalhista no quesito explicação, o que pode cansar os mais ávidos pela informação direta. Sei disso porque muitas vezes assisti a vídeos de artesanato, nos quais eu avançava quando achava que o assunto estava demorando, e ia para a parte que me interessava. Terminava e ia para o próximo, se o anterior não tivesse atendido as minhas necessidades. E assim fiz por muitas vezes, e deste modo, achei vídeos que em minha opinião eram ruins, outros que foram muito bons, mas não me recordo, em NENHUMA vez, ter deixado um comentário contra o vídeo em questão, mesmo quando sugestões ou críticas eram pedidos. E sabem por que? porque parto de um princípio bem básico: quem ali deixou seu vídeo de graça, dedicou seu tempo tentando ensinar algo sobre o qual poderia estar lucrando, e só por esse motivo, já merece todo o meu respeito. Se não gosto, simplesmente vou para outro - fácil, não é?

Então façamos assim: critique-me, por favor, com a leveza necessária, porque não sou obrigada a nada, faço porque quero, quando tenho tempo e quando acho que o assunto é interessante. Gravo na minha casa, onde falo o que quero, quando quero e como quero - sempre respeitando o próximo. Se não gosta, avance o vídeo, pois  garanto que vai achar interessante em algum momento. E, antes de deixar seu comentário, somente lembre-se que você vai aprender de graça, portanto, agradeça, em primeiro lugar, e depois pode deixar o seu "não gostei".

Sim, estou me doendo. Sou humana, e como tal, sinto-me no direito de agir assim. E, sim, apaguei o tal comentário, porque não quero polêmicas no canal. E sim, pretendo continuar gravando pequenos vídeos e postando para aqueles que querem aprender,  portanto será um prazer receber sua visita.

Gostaria imensamente de agradecer a todos que deixam o seu "joinha", que felizmente é em número bem maior do que os "não gostei" - sinal de que meu caminho não é de todo torto. Obrigada a todos que dedicam minutos preciosos do dia ou noite para ouvir o que tenho  a dizer, e se fazem uso das técnicas, então atingi meu objetivo, que é o de ajudar, assim como sou ajudada. Obrigada a você , que leu o textão, e desculpe-me pelo desabafo - é que às vezes, penso que tudo o que o mundo precisa é de "mais amor, por favor" - e com certeza não estou falando dos romances.

E até a próxima, com tecelagem, espero!



domingo, 22 de janeiro de 2017

Experimentos em tecido dobrado

Férias são, para mim, chance de experimentar técnicas e padronagens que normalmente não consigo ao longo do semestre. Gosto, então, de dividir os resultados, e aqui vai outro, agora em tecido dobrado.

Tenho uma certa fascinação por esta técnica, não sei bem o porquê. Em termos práticos...nada. Gasta-se uma quantidade de fios muito acima do usual - claro, estamos falando de duas camadas de tecido, e não de uma - sem contar o tempo para calcular a largura, liçar, organizar os fios no pente...bem, tudo o que faz parte do processo. Intercalar as camadas, então, é um passo adiante, e saber quais camadas movimentar e como acompanhar a pedalada, outro ainda...ah, sim, você quer fazer padrões com as camadas intercaladas? outro planejamento. Então, nada de bom, certo? só trabalho e trabalho...




A hora que você vê resultados como esse...é como uma droga boa (se é que existe) - você VAI fazer de novo...e de novo...

Seguem o gráfico e explicações técnicas:


Muito bem, vou tentar fazer o melhor que posso para explicar,ok? 
A representação gráfica é igual a várias que já postei aqui, então ao olharmos rapidamente, temos uma representação de camada simples, e de fato, se quisermos liçar por esse gráfico, da maneira usual, nós podemos. A grande sacada é tramar como um tecido dobrado, ou seja, tecer duas camadas de tecido separadamente.
Eventualmente, e é o que o experimento representou, podemos separar as camadas E intercalá-las em alguns pontos da trama, e é isso que eu fiz. Neste caso, então, teremos locais onde as camadas se encontram, e depois se separam. Super bacana, porque padronagens diferenciadas surgem daí.

O gráfico acima, então, representa duas camadas: uma que é formada pelos quadros 1 e 2 (marrom), e outra que é formada pelos quadros 3 e 4 (amarelo). Quando olhamos a amarração, ou tie-up, (conjunto de 8 quadros no canto esquerdo, acima) nós vemos duas representações, lado a lado, dos 4 quadros, representando todos os movimentos que serão executados para conseguir o desenho que bolei. É preciso entender de maneira clara estes movimentos.
O primeiro conjunto (à direita), representa os movimentos que serão executados para tecer uma camada ACIMA da outra, enquanto o segundo conjunto (à esquerda), representa movimentos para que uma camada seja tecida ABAIXO da outra. Veja que o primeiro conjunto nos diz que para tramar 1 e 2, basta acionar estes pedais (lembrar que trabalho em um tear tipo jack, e não mineiro), que então os fios de 1 e 2 serão erguidos, e se trabalhados de maneira alternada (1,2,1,2, etc), formarão ponto tela. No entanto, nas regiões dos quadros 3 e 4, não haverá trama, mas somente fios da trama que passarão por cima dos fios do urdume destes quadros. 
Leia a pedalada (coluna à esquerda, embaixo do tie-up). Veja que inicio a trama com o fio marrom (o mesmo dos quadros 1 e 2), e começo acionando estes quadros, que formam a camada de cima. Assim, faço ponto tela com 1 e 2, e passo por cima de 3 e 4. 
Em seguida, eu vou trabalhar, com o mesmo fio marrom, a camada de baixo (urdume amarelo). Para tanto, de acordo com o tie-up, eu preciso subir primeiramente 1, 2 e 3, e deixar os fios do quadro 4 para baixo, passo o fio da trama, e depois, subo 1, 2 e 4, deixando os fios do quadro 3 para baixo. Trabalhando deste modo (4,3, 4, 3...) eu formo a camada de baixo em ponto tela. Não faz diferenca se eu trabalhar 3, 4, 3, 4...vou formar do mesmo jeito. O mais importante é trabalhar a camada amarela embaixo da marrom, de maneira separada. Veja que para completar a primeira parte do padrão, eu volto a trabalhar 1, 2, 1,2...etc, como no começo, com o mesmo fio marrom.

Se  ao longo do trabalho eu continuasse a repetir estes movimentos, eu teria, então duas camadas separadas, que seriam unidas pelas laterais (ou não, depende de como se deseja o tecido, mas isso é uma outra discussão). No entanto, o objetivo é intercalar a camada de cima com a debaixo, e é isso que faço com os próximos movimentos.

Veja que, ao acionar os quadros 3 e 4, eu trago para cima a camada que está embaixo (os fios sobem). deste modo, e neste ponto, eu promovo uma junção entre as camadas - os fios do urdume que então corriam separados, ficam como cruzados neste ponto. Trazendo então os fios 3 e 4 para cima, executo o ponto tela, e continuo os movimentos para fazer um desenho similar ao primeiro, mas agora com a camada amarela. O resultado são pontos de intersecção de camadas, que formaram o desenho das fotos acima.

Eu fiz um breve video complementar. Maiores detalhes, em uma apostila, em breve....




Até a próxima!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

E assim começa 2017

Olá, seguidores! feliz Ano Novo a todos. Depois das festas e o barulho dos fogos, é tempo de começar os relatos ao longo de mais um ano.

De férias, comecei a fazer alguns experimentos, no esquema "estudo", mesmo, sem intenção alguma de produzir peças. Haviam algumas técnicas que queria aprender, mas por falta de tempo, fui deixando de lado, e agora, é momento de tentar algumas coisas.

Uma das técnicas que aprendi chama-se "swivel". De origem incerta, esta técnica consiste na confecção de padronagens diversas em ponto tela, que é formado na trama com dois fios de cores diferentes - um, que vai formar o desenho propriamente dito, e outro, da cor do urdume, que é complementar ao fio do desenho, uma vez que completa o ponto tela. De maneira curiosa, o resultado é um "efeito bordado" por assim dizer. A técnica, em si, é simples, pois está baseada na interação dos quadros pares com os impares: quadros 1 e 3 interagem com os quadros 2 e 4, formando o ponto tela. Deste modo, qualquer liçagem que seja montada intercalando quadros pares e impares pode ser tecida em "swivel". Mas vamos começar do gráfico:



Ao observarmos a liçagem, e lendo da direita para a esquerda, vemos que há sempre uma variação par/impar: 1, 2, 1, 4, 1, 2,..etc. Esta organização é comum a várias técnicas, tal como "overshot" (equivalente ao repasso mineiro), cuja pedalada permite que o fio da padronagem passe por cima de dois ou mais fios do urdume, criando um desenho, uma vez que dois quadros são acionados ao mesmo tempo, para cada passada; um fio de ligação, fazendo o ponto tela normal, e da cor do fio do urdume, é passado logo depois, para sustentar a trama e dar firmeza ao tecido:







 No swivel, o fio da padronagem também irá passar por cima, mas somente de cada fio, pois somente um quadro é acionado a cada vez. Deste modo, se acionado o quadro 1, por ex, o fio da padronagem passará somente por cima dos fios que pertencem a esse quadro.
Conforme vemos no desenho acima,temos a pedalada à direita (vertical), que é lida de cima para baixo.  O fio de padronagem é azul; veja que, ao passar por cima de CADA fio, cria-se um desenho pontilhado. O fio complementar, da cor do urdume, deve passar completando o ponto tela. Esta complementação será feita de acordo com o desenho desejado. No exemplo acima , a complementação é feita entre os pares 1 e 3 e 2 e 4.
Assim, de acordo com o gráfico, a primeira passada (em azul) ocorreu por cima dos fios do quadro 1, e deste modo, este quadro foi acionado para que estes fios abaixassem, enquanto que os fios dos quadros 2, 3 e 4 permaneciam no lugar;  a próxima passada ocorreu abaixando os fios do quadro 3, com o fio complementar, enquanto que os fios de 1, 2 e 4 permaneciam no lugar. Entre estas duas passadas há a formaçao de ponto tela, pois uma vez que os fios da padronagem e complementar passam por cima de 1 e 3, obviamente passam por baixo de 2 e 4.
Ao continuar a leitura da pedalada, vemos a continuidade da complementação entre os fios de padronagem e complementar, formando o desenho.

Após a execução e lavagem das amostras, obtive algumas coisas muito interessantes:




A primeira foto mostra o desenho acima tecido em overshot (cima), e swivel (embaixo), mostrando que o mesmo desenho pode ser tecido com técnicas diferentes. É possível ver o ponto tela nas partes em azul, complementando o amarelo do padrão. A foto logo abaixo mostra outra amostra em swivel do mesmo desenho.

É importante salientar que, uma vez que os fios da trama passa por cima de cada fio do urdume, o avesso será composto de longas flutuações. Assim, tais tecidos são muito bons para trilhos de mesa, almofadas, bolsas, ou outros tipos de produtos cujo avesso normalmente fica escondido.

Ainda tenho mais alguns estudos a fazer antes de conversarmos mais apropriadamente sobre swivel. De qualquer maneira, fica aqui uma breve explicação sobre o tema. Para aprofundar, sugiro a leitura que me motivou e que me apresentou ao assunto: a revista online "Heddlecraft", de Robyn Spady.       ( https://www.heddlecraft.com/)A cada número, uma novidade e ótimos ensinamentos; só que está em inglês. Se você domina a lingua e quer aprender, não deixe de fazer a assinatura. Swivel, entre outros assuntos, fazem parte da edição de Setembro/2016.

No próximo post, mais estudos, agora em tecido dobrado, intercalado. Aguardem!

Até lá!